quarta-feira, 7 de abril de 2010

Vale: analistas comentam que ameaças de siderúrgicas chinesas têm pouco impacto

SÃO PAULO - As ameaças das siderúrgicas chinesas e europeias ainda devem causar muito barulho, mas terão pouco efeito prático para a Vale (VALE3, VALE5), acredita Pedro Galdi, analista de investimentos da SLW. O minério de ferro é um produto essencial para as siderúrgicas, que dependem dele para produzir o aço.
Além disso, o preço do minério não para de subir no mercado spot. "A elevação projetada pela Vale agora tem base no preço à vista durante o quarto trimestre, e por isso o aumento proposto é tão expressivo", avalia Galdi. Para Antonio Emilio Ruiz, analista do Banco do Brasil, os atritos são causados justamente por essa combinação entre oferta muito apertada e demanda ganhando fôlego.
Boicote
A Vale anunciou reajustes entre 80% e 90% para o minério de ferro com as principais fabricantes de aço da Coreia do Sul e do Japão, e essa definição normalmente serve de base para as negociações com as siderúrgicas europeias e chinesas.
A CISA (Associação de Ferro e Aço da China), por sua vez, defendeu nesta segunda-feira (5), que as empresas do setor do país boicotem o minério vendido pela Vale, BHP Billiton e Rio Tinto, as três maiores empresas mineradoras do mundo. A CISA avalia que a suspensão poderia durar cerca de dois meses, já que a Associação disse ter armazenado nos portos chineses 75 milhões de toneladas da commodity.
Para Pedro Galdi, a ameaça esbarra em dois problemas: é pouco provável que a logística do país realmente suporte esse volume nos portos e, ainda que isso seja verídico, a demanda chinesa pelo minério está tão aquecida que o estoque poderia durar bem menos do que o avaliado inicialmente pela CISA.
Pouca representatividade
Para Ruiz, a concretização do boicote é improvável porque o mercado chinês é altamente pulverizado, e haveria necessidade de um real embargo para que a China conseguisse deixar de importar minério de ferro das três principais companhias do setor.
"É muito complicado de isso acontecer. A CISA pode ameaçar as mineradoras, mas ela teria que ter muita representatividade para colocar esse plano em prática", aponta o analista do Banco do Brasil. Em sua avaliação, a Associação é conhecida pelas declarações espalhafatosas, mas pouco efetivas.
"Talvez a CISA seja a voz de um grande número de pequenas empresas pouco representativas", resume. Para corroborar a percepção, Ruiz cita comunicado oficial da Vale em que a empresa afirma já ter acertado contratos com 97% de sua base clientes, o que corresponde a 90% dos volumes contratuais.
Eurofer
Por outro lado, a briga com a Eurofer (Confederação Europeia das Indústrias de Ferro e Aço) é um pouco mais sensível, já que é uma organização mais eficiente e sistemática, avalia o analista do Banco do Brasil. A Confederação apresentou queixa na Comissão Europeia alegando que Vale, BHP Billiton e Rio Tinto estão atuando em cartel para definição em conjuntos dos novos preços.
Ainda assim, Ruiz descarta intervenção de alguma agência de comércio na atuação das três mineradoras, ao menos no curto prazo. Teria que ser, em sua avaliação, um lobby muito bem estruturado, com muita atuação política. Isso porque é necessário, para diminuir a concentração do mercado, que as empresas vendam suas minas de minério de ferro para outras concorrentes, algo que não seria aceito pelas companhias sem muita luta.
Pedro Galdi ainda aponta para a inexistência de outra empresa de porte que possa contribuir para a divisão mais equânime do mercado. Assim, se mudanças são tão difíceis, qual será o impacto para a Vale de toda essa gritaria em torno do aumento do minério de ferro?
Lógica
Ambos os analistas respondem que será praticamente nulo. Pedro Galdi utiliza uma lógica bastante simples para explicar seu ponto de vista: "a Vale tem produto para vender. As siderúrgicas precisam do minério de ferro para fabricar aço, não importa a qual preço. A elevação dos custos será repassada no preço dessa commodity para as montadoras automobilísticas, por exemplo, que por sua vez repassarão a alta dos valores para o consumidor. E o resultado disso tudo será uma inflação generalizada".
E aí, é um outro problema, que não será mais da Vale. Alguns governos, como o do Brasil e da China, terão espaço de manobra para aumentar os juros, já que as economias desses países recuperam-se em ritmo acentuado. Por outro lado, o que fará os Estados Unidos com uma inflação pressionando e sem a possibilidade de aumentar a taxa de juros dada a fragilidade da situação econômica? Para Pedro Galdi, cada país terá que encontrar uma solução própria para esse outro problema.
Fonte: Infomoney

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