sexta-feira, 11 de junho de 2010

BC aumenta o juro básico para 10,25% ao ano

Banco Central deverá continuar aumentando os juros básicos
Boa parte da população não sabe de sua existência ou não conhece o seu alcance. Porém, todos são afetados por uma alteração da taxa básica de juros, a Selic, aumentada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central na noite desta quarta-feira em 0,75 ponto percentual, de 9,5% para 10,25%.
Líderes e analistas catarinenses dizem o que pensam sobre a elevação adotada pelo governo federal para brecar o consumo no país e conter a pressão inflacionária. A Selic remunera os títulos públicos depositados no Sistema Especial de Liquidação e Custódia, operação que permite atualização diária das instituições financeiras e reflete a média de remuneração dos títulos federais negociados com os bancos. Com isso, a taxa influencia os juros de toda a economia.
Depois de nove meses estável em 8,75%, a Selic teve o segundo aumento do ano. Em abril havia sido reajusta para 9,5% ao ano. Veja abaixo o ponto de vista dos líderes e analistas catarinenses.
Paulo Guilhon, presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon)
“O governo aumenta os juros porque gasta demais e precisa manter as contas em dia. Continuar com a carga tributária em quase 40% do PIB é inaceitável. Quem é penalizado é o cidadão comum, com uma economia que não consegue manter um bom ritmo de crescimento. Desde a década de 1980 crescemos a índices pífios. Acredito que não era o momento de se elevar os juros. O Brasil precisa ter vontade de crescer. A qualquer indício de aquecimento, o governo já puxa o freio da economia. A razão de que a economia crescendo demais aumenta a inflação de demanda é uma falácia. A indústria quer produzir, temos uma capacidade de produção ociosa.Com juros altos, o empresário não tem segurança para investir. Os grandes problemas são: gasta-se demais e não se investe no que realmente é necessário: infraestrutura e capacitação humana.”
Osmar Silveira, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas
“O aumento da taxa juros é ruim tanto para o consumidor quanto para os empresários. A alta da Selic impede que os empreendedores busquem dinheiro para fazer reformas e investimentos. Mais cedo ou mais tarde, os valores serão repassados para a mercadoria.“Esse aumento é desnecessário. No último mês, a inflação estava baixa. Precisamos manter uma tendência de baixas consecutivas na taxa de juros.”
Carlos Tramontin, professor de Teoria Econômica do Curso de Economia da Universidade do Estado Santa Catarina
“Não foi surpresa porque o ministro Guido Mantega (Fazenda) já havia dado sinal nesse sentido. A Selic é a taxa de juros mais baixa do país. Se ela sobe, as demais também aumentam e chegam aos consumidores. Após a alta da Selic crescem também os juros do cheque especial, do cartão de crédito das compras a prazo etc. E isso retrai o consumo, que é justamente o que o governo quer.O comércio tem liberdade até para manter a taxa de juros, mas, normalmente, o aumento da Selic tem efeito cascata e alcança o consumidor de forma imediata. Se você der uma volta por aí, hoje, já deverá sentir a diferença nos juros.”
Clovis Mena Dutra, presidente do Sindicato dos Bancários de Florianópolis e Região
“Se comparado com outros governos, a administração do Lula tem baixado a taxa de juros. O gráfico é decrescente. O governo poderia ter sido feito um esforço para não haver este aumento.É um assunto bastante complexo. Há muitas divergências entre os especialistas no quesito de qual é a melhor taxa de juros do país. No Japão, por exemplo, a taxa de juros é de 0,1%. Esperamos que nas próximas reuniões do Copom a nossa Selic diminua. Subir os juros é prejudicial para todos os negócios.”
Célio Spagnoli, vice-presidente da Federação do Comércio de Santa Catarina
“Esse aumento feito pelo Copom não era necessário. Não tem um motivo que justifique a atitude. A economia sofreu um impacto por razões pontuais, mas, de uma forma geral, está estabilizada e deve sofrer uma acomodação no segundo semestre.“Estamos saindo da crise e do fim de alguns incentivos que foram dados em produtos como automóveis e linha branca. Isso já reduziu um pouco o movimento do comércio. E agora, com essa nova taxa de juros, o impacto pode ser muito maior.”
A decisão do Copom
O Comitê de Política Monetária (Copom) não surpreendeu. Fez exatamente o que era esperado pelo mercado ao aumentar a Selic para 10,25% ao ano. Os analistas projetam novos ajustes na taxa neste ano, até o limite de 11,75%, como forma de conter as pressões inflacionárias.
Em nota curta divulgada à noite, o Copom declarou o seguinte: “Dando seguimento ao processo de ajuste das condições monetárias ao cenário prospectivo da economia, para assegurar a convergência da inflação à trajetória de metas, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic para 10,25% ao ano, sem viés”, ou seja, sem a possibilidade de revisão até a próxima reunião daqui a 45 dias.
Indústria critica a decisão
Tão logo o Copom divulgou o aumento dos juros, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou nota na qual critica a posição do Banco Central e ressalta que vê com preocupação o retorno da taxa Selic ao patamar de dois dígitos.
De acordo com a CNI, a decisão é fruto de uma “avaliação equivocada” sobre a expansão da economia nacional. Ressalta que o “excepcional” crescimento de 9% no Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre “não deve orientar as expectativas para o restante do ano”, porque os incentivos fiscais criados para amenizar o impacto da crise internacional sobre a economia foram extintos em março.
A CNI lembra que o aumento do investimento foi mais intenso do que o do consumo para o crescimento da economia no primeiro trimestre, e entende que a maturação desses investimentos aumentará a capacidade de produção da indústria, com redução de pressões inflacionárias no futuro.
Além disso, os técnicos da entidade acreditam que a evolução recente dos preços aponta para o arrefecimento da inflação, especialmente dos alimentos. Portanto, há espaço para que o ciclo de alta dos juros seja mais curto e de menor intensidade que o inicialmente previsto.
Centrais sindicais são contra a medida
As duas principais centrais sindicais do país, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Força Sindical criticaram, na noite desta quarta-feira, a elevação da taxa básica de juros.
“É uma insanidade a decisão dos membros do Copom em aumentar a taxa básica de juros. Lamentamos a insistência dos tecnocratas em travar o crescimento, utilizando métodos para conter supostas pressões inflacionárias que são perversos para com os trabalhadores”, diz a Força Sindical, em nota.
A central sindical ainda ressalta que medida do BC “bajula” os especuladores financeiros. “É frustrante, neste momento auspicioso da nossa economia, presenciarmos o Banco Central tomar medidas nefastas como esta, com o intuito de frear a produção e o consumo, e bajular os eventuais especuladores. Aliás, estamos virando um paraíso para os especuladores”, diz o texto.
A CUT afirmou que o aumento da Selic faz parte de uma política "assistencialista" para banqueiros. “Existe uma forte pressão por parte do setor financeiro e seus representantes para que esse ciclo de aumento da taxa básica de juros permaneça. Pelos cálculos do economista Amir Khair, se a taxa chegar a 11,75% até o final deste ano, o Brasil gastará a mais com a rolagem da dívida o equivalente a R$ 13 bilhões”, afirma a nota da CUT.
Economista não vê surpresa
Para o economista José Márcio Camargo, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), o aumento de 0,75 ponto percentual na taxa Selic já era esperado pelo mercado. “Não tem nenhuma surpresa. E o comunicado foi exatamente igual”, afirmou.
A decisão de elevar a Selic para 10,25% ao ano é justificada diante do crescimento da demanda que ocorre mais rápido do que a oferta, explicou. “O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) mostrou isso claramente”.
Para José Márcio Camargo, a partir de agora, a economia vai apresentar um arrefecimento do crescimento nos próximos trimestres. “Isso, provavelmente, vai gerar menos pressão inflacionária e tenderá a levar a inflação para a trajetória de metas ao longo de 2011, porque isso demora para fazer efeito”.
Portal Economia SC

Nenhum comentário:

Postar um comentário